O POEMA DA INDIFERENÇA

Dou passos arrastados na areia
A maré removerá todos os vestígios
Arbustos mortos rolam na rebentação
O horizonte respira melancolia
Navios duvidosos vogam em direcção a Ormuz
Pescadores enrolam redes remendadas
Um gato procura abrigar-se da pesada chuva
O chamamento do mulá perde-se nas ondas
Recitando uma oração volátil
Mensagens de submissão incondicional
Cantos para Deus, que não desejo ouvir.

Sou aquele que sempre deu a outra face
Fui mil e uma vezes agredido
E em mil ocasiões tudo perdoei
Educado para dar, sem nada esperar
Nunca neguei um apoio gentil
Jamais regateei uma palavra doce.

Porém, hoje eu morri
A visão do mundo turvou-se
Os sons destilaram-se em silêncio
O sangue esvaiu-se lentamente
Parti sem prantos ou lágrimas
Quando me quis, já não me encontrei.

O meu fantasma acordou agnóstico
Ergueu-se com um sabor de fel na boca
Olhou para inúmeras cicatrizes por sarar
Todavia sentiu-se incapaz de sofrer
Sacudiu a areia dos farrapos que lhe cobriam a alma
Soltou o espartilho dos seus valores
Envergou vestes de imaculado negro
Sorveu uma deliciosa taça de indiferença
Sentiu-se mais vivo que em vida
Já nem todas as faces merecem um sorriso.

M.Daedalus

 

 

 

Anúncios

Um comentário em “O POEMA DA INDIFERENÇA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s